quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Recebendo visitas

Estava me preparando para iniciar esta postagem, já preocupado sobre o que iria escrever quando bateram à porta de casa. Quem será? Não lembro de ninguém que tivesse este costume de chegar à noite avançada para uma visita. Levanto-me e vou à porta. Ao abrí-la, tenho uma surprea agradável: o Seu Chico veio nos visitar...

Pra quem não conhece, o Seu Chico é meu conhecido de tanto, mas tanto tempo que nem me lembro mais. Mineirinho, gente boa, gosta duma cachacinha amarela (pra abrir o apetite antes do amoço, segundo ele), um tutu à mineira, um cigarro de palha e de viver longe da cidade. Seu Chico é analfabeto, não foi à escola para ajuda o pai e a mãe na roça. Seu Chico gosta também de contar um "causo" e hoje não me fiz de rogado, pedi que ele me contasse um. Transcrevo abaixo o "causo" exatamente como ele me disse, com sotaque caipia e tudo:

"Bão, vô contá procêis uns causo do meu cumpadi Zé Linguiça. Eu i u Zé Lingüiça nascemo i si criemo junto. Nóis e a bicharada toda no sítio do meu pai. Das veiz o Zé Lingüiça si sumia de tarde e nóis precurava prá tudo que é lado essi minino e quando nóis ia vê, tava lá no galinheiro. Aí eu dizia prá ele: - Zé Lingüiça o quê qui ocê tá fazeno aqui? e ele dizia qui quiria vê cumé que as galinha fazia pá pô a crara e a gema drento dos ôvo. Coisa ingraçada  o ôvo! Sabe qui inté ieu fiquei curioso agora: cumé qui elas faiz pá pô a gema i a crara nu ovo sem tê uma tampa pá abri i fechá?

Bão, nóis foi creceno i si criemo daquele jeitão di bicho do mato. Quano di fim di semana nóis ia jogá futibór cos vizim era um trem di si vê: nóis tinha um timi qui era um ispetáculo! Era o Bóbrão nu gôr, u Butinin i u Cascaim na defesa, nu meidicampo era u Finim i u Taquara, dispois vinha ieu i u Zé Lingüiça. Tinha veiz qui saia uns jogo di rancá faísca du chão! Dispois nóis ia pra casa prá móde cortá a unha du dedão do pé. Prá ocêis qui num sabe, nóis jogava no meio dus pasto pertim dus boi. Era uns di pé nu chão pisanu nas toicêra di capim, otro di butina furada sapatiano nu barro, das vêiz nóis amirava pá chutá a bola i chutava umas preda nu chão, otras veiz quanu acertava u chuti a bola ia lá tráis duma moita di ranhagato. Aí cumeçava u pobrema: quem ia buscá a bola?

Daí nóis crecemu mais e fiquemo moço. Subemo que perto di nóis tinha uma tar de cidade. I nois só cunhicia essa tar di cidade pelo qui os mais véio dizia quando vortava cas compra qui ia fazê nu fim du mêis. I pá í pá cidade era duas hora di carroça. Um dia, ieu, u Zé Lingüiça i mais uns cinco seis vizim inventemo de í cunhecê a tar cidade. Tomemo aquele banhão mais sabe aquele banhão di lavá inté atrais da oreia? Pois é, dispois du banho, vistimo as mió rôpa qui tinha. Óia só: as carça di linho preta riscada di branco qui u pai usô nu casamento, uma camisa vermeia xadreizada di cinza, uma cinta qui eu peguei imprestada du meu tiu - só procêis imaginá, a mêma cinta u meu tiu usava pra marrá nus trator prá dirrubá arve nu mato, qué dizê, num tinha pirigu di rebentá i mi caí as carça nu mei da cidadi mais prá jeitá a cinta toda ieu tinha di dá umas treis quatro vorta in roda da carça. Carçei as meia di í na missa e in riba delas uma butinona jeitada qui eu nem tinha istreiado ainda. Pidi imprestado pru pai um tar di prefumi, um trem fedorento qui cherava bem i prá firmá us cabelo, passei nu tanqui i passei um poquim di sabão. Mais daquele sabão feito in casa, qui aquilo firma o cabelo que é uma beleza dispois dirruba que é uma tristeza. Pá ivitá aquele catingão dibaxo du subaco fui precurá o tarco. Num é qui tinha cabado? I cumé qui eu ia lá no meio dos povo tudo chique da cidade sem um tarco? I si u trem cumeçasse a fedê? Cumo num tinha otro ricurso, carquei farinha dibaxo du subaco! Ói, cêis num sabe u quanto mi rependi di tê feito isso! Eu vô diantá o causo prá mode ficá mais devertido mais dispois eu vorto. Sei que mi rependi di tê passado farinha dibaxo do subaco pruquê quano cheguei in casa já tava cum duas broa dibaxo do braço: já sovada i sargada!

Bão, daí foi só isperá na portêra a carroça cus vizim i fumo prá cidade. Agora, ocês imagina qui viage nóis feiz: duas hora in cima duma carroça chacoaiano pra lá i pra cá, us musquito
pegano, u sórzão bateno na cara! Daí a poco o Garrincha que tava guiano a carroça cendeu um paiêro daqueis fedorento qui nem musquito guentava. Bão, in dois minuto nem mosca rudiava us boi. Aquele paiêro sortava tanta fumaça qui quem oiasse di fora do mato jurava qui tava passano uma maria-fumaça ali no meio. Infim cheguemo dispois di duas hora na tar cidade: qui trem grandi qui era! Aí nóis apeiemo da carroça i fumo caminhano, oiano as coisa por lá i di tão distraído qui nóis tava num vimo qui o Bóbrão tinha ficado pá tráis. Oiemo di vorta i vimo o Bóbrão parado in frenti uma casa falando cum uma dona istranha. Gritemo ele i ele veio daí a poco preguntano purque nóis tinha chamado ele. Ieu dissi: - Ô Bóbrão, qui qui a dona quiria? Aí ele arrespondeu qui a dona tava falano umas coisa bunita prá ele, tale coisa i coisetale, prumeteno umas coisa diferente... Aí ieu dissi: -Bóbrão dexa di sê trôxa, aquela dona é mais pobre que aquele ômi qui mora lá tráis do paió! Ai ele preguntô cumé que eu sabia que aquela dona era pobre i eu arrespondi: - Bóbrão, é só oiá pra ela i vê! Cê num viu qui ela tava só cas rôpa di baxo? A dona é tão pobre qui num tem dinhero nem pra cumprá rôpa! I as lúiz da casa dela tá tão fraca qui nem é marela mais, já tá é vermeia! Aí uns ano dispois nóis fiquemo sabeno qui ali era a tar da "Aligria da Cidade".

Só sei que o Seu Chico ficou mais um tempão aqui e depois foi para casa mas antes contou mais dois "causos" que ficam para próximas postagens.

Bom, pessoal. Por hoje é só! Até a próxima! Comentem se gostaram ou não, se devo postar os outros dois casos ou não!

Um comentário:

  1. Muito bom o conteúdo do post, muito bom.
    Eu sou professora, casada com um radialista e, quando meu marido está no ar, quem escreve os seus programas sou eu.
    Caí aqui por um acaso, estou procurando o blog de uma amiga. De qualquer maneira, gostei muito do que vi. Parabéns pelo trabalho

    FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... e MEU CADERNO DE POESIAS desejam uma boa semana para você.
    Saudações Educacionais !

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